Amanhã é Domingo


Juntavam-se à porta do prédio para fumar. Eu não fumava, não nessa altura, mas ficava com eles até ser demasiado tarde para apanhar o autocarro de regresso a casa, acabando sempre a correr para o último. Gostava muito quando fazia a viagem inteira num autocarro só para mim, sentada no penúltimo banco, do lado do passeio. Não gostava de viajar com vista para a estrada. Para me entreter, levava o walkman e um livro, que acabava por abandonar à conta dos solavancos que me embalavam e tornavam as frases turvas. Durante o resto do caminho distraia-me a observar as luzes da cidade pela janela, a noite a cair, as pessoas que esperavam nas paragens por onde ia passando. Imaginava para onde iam, de onde vinham, se tinham alguém à sua espera, se eram felizes. Nalgumas caras percebia-se que sim, pela forma como sorriam ou falavam com quem estavam. Noutros rostos sorridentes os olhos não conseguiam esconder a melancolia e a solidão. E eu ficava a pensar muito nisso. Ainda penso. Se uma dessas pessoas entrasse no autocarro, não conseguia evitar um olhar longo e demorado, tentando adivinhar que lugar iria escolher para se sentar. Quase sempre escolhiam um daqueles lugares de que não gostava nada, só para uma pessoa. Ou então sentavam-se muito próximo de mim, o que me deixava desconfortável. Detestava quando me olhavam fixamente. Assim que o autocarro arrancava, esquecia rapidamente quem tinha acabado de entrar e aninhava-me de novo no meu banco, com a cabeça encostada à janela para ver a rua passar muito depressa. Chegava sempre atrasada ao meu destino.

Partilhámos aquelas escadas todos os dias, durante anos. E todos os dias da semana apanhava o último autocarro para casa. Todos, menos ao Domingo.

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