Not a morning person

Acabei por sair da cama e apanhei a roupa do chão. Arrastei-me até à casa de banho, liguei a água, olhei ao espelho a cara inchada de quem pouco dormiu e enquanto esfregava os dentes com colgate pensei no quanto detesto ter razão. Devia dar mais atenção ao meu instinto, segui-lo em vez de esperar que me mostrem o contrário. Devia ser mais orgulhosa e menos compreensiva, mais organizada, mais focada, falar mais com quem não falo e menos com quem falo demais. Mas não de manhã. Nunca falo de manhã. Acho que gosto de manhãs, mas preciso de cafeina e de tempo até conseguir interagir com os outros humanos. Entro no banho, demoro-me. Saio e volto a olhar-me ao espelho, o vinco da almofada já devia ter desaparecido, mas não. Nem o vinco, nem os olhos inchados. Desconfio que me vão fazer companhia o resto do dia, apenas para me lembrarem que os 30 moram mesmo neste corpo, mesmo quando me dizem que não. Visto-me. Olho para a caixa dos relógios e decido levar o último que me ofereceram. As horas dizem-me que estou atrasada, como sempre, como em quase tudo. Continuo a pensar no instinto, devia ser-lhe fiel mais vezes. Já percebi que analisar as coisas exaustivamente nem sempre me leva onde quero chegar, as minhas estatísticas pessoais assim o comprovam. Atiro com a "Lentidão" do Kundera para dentro da mala, nunca sei a que horas do dia me pode apetecer um livro. Faço o mesmo a uma barra de cereais de chocolate. Também eu me sinto lenta, mas acabo a correr na cozinha, entre o micro-ondas que aquece o leite e a mala que esconde as chaves do carro num bolso secreto que só ela conhece. Começo a achar que afinal não gosto assim tanto de manhãs quanto isso. Apetece-me voltar para a cama, deitar-me de gabardine vestida e deixar o dia passar por mim. Estou constipada, devia existir uma lei que me proibisse de ir trabalhar constipada. De certeza que no Japão eles têm uma lei dessas. Ou se calhar não. Talvez me obrigassem a trabalhar de mascara na cara, numa sala isolada. Talvez não fosse melhor. Mas sempre podia comer todo o sushi do mundo, há sempre um lado bom. Fecho a porta à pressa. Entro no carro, mas não sem antes despejar a mala na rua à procura do rádio. "Estou tão atrasada, Lykke Li." Dou por mim a falar com a miúda que canta no mp3. A viagem até ao trabalho é curta, hoje durou só uma música. Penso que não devia ter ficado a ler aquelas coisas todas até tão tarde. Apenas serviram para comprovar o que já sabia, o que sempre soube. Talvez devesse deixar de aplicar o método científico a tudo o que se passa na minha vida. Acabei por dormir mal, ter sonhos estranhos sobre um futuro recente que não reconheço para mim, que não quero mais. Detesto quando um sonho confuso me acorda a meio da noite.

Chego ao trabalho e estaciono à porta. Sorte. Ainda por cima hoje está um dia bonito. Gosto do ar fresco da manhã. Quase consigo cheirar a Primavera no ar, não fosse o meu nariz estar tapado. Começo a gostar de manhãs outra vez, provavelmente por pouco tempo. Caminho aos tropeções até ao elevador, cumprimento os seguranças e a senhora que limpa o hall da torre. Carrego no 8. Passo o cartão na entrada e sento-me no lugar que ocupo há tempo demais. "Ouvisse eu o meu instinto e já não estaria aqui", penso. Abro o email, as aplicações e uma página da net. O computador bloqueia. Sofro de stress informático, dizem-me. Apetece-me um spider solitaire com o meu café, mas acabo por abrir o word. Anseio pelo final do dia. Hoje não é dia de começar de novo. Ainda.

1 comentário:

  1. As manhãs deviam ser banidas.

    Só há bem pouco tempo, infelizmente, é que me apercebi que havia mundo antes das 9 da manhã. E não é bonito! :|

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