Há anos que adiava uma limpeza aos contactos acumulados nos telemóveis. Sim, telemóveis, plural, dois. De redes diferentes. Uma estupidez justificada pelo facto de ser demasiado apegada a coisas como bilhetes de concertos, frascos de perfume vazios ou o meu primeiro cartão SIM, do qual nunca me consegui desfazer, nem mesmo quando a necessidade me obrigou a ter outro de rede diferente. Ao longo dos anos fui acumulando contactos associados a nomes que já nem sequer reconhecia ou conseguia associar a um local, mas imaginava sempre que ao apagá-los iria originar um alerta no telefone da outra pessoa, que acabaria por saber que eu a estava a apagar da minha lista, ficando por isso ofendida. Conseguia até imaginar as senhoras da clínica e spa, cujo contacto me foi passado pela Jo, a tratarem-me com desdém no dia em que lá entrasse pela primeira vez. "Olha, esta foi aquela que apagou o nosso número do telefone…hmpf!" Outra estupidez, eu sei. Gerir os meus contactos inúteis estava a causar-me uma ligeira ansiedade.
Até que um dia destes a minha garrafa de água decidiu tratar do assunto por mim. Passeava alegremente pelas ruas de Lisboa, quando enfiei a mão na mala para procurar o telefone e fiquei com o braço molhado até aos cotovelos. Confesso que na altura não consegui perceber de imediato o quão libertador era o momento que estava a viver. O tremelique no olho esquerdo que a morte do meu Android de apenas 5 meses me estava a causar não me permitia ver com clareza o que estava a acontecer. Enquanto hiperventilava e conduzia às voltas, sem destino, com o conteúdo da mala espalhado pelo chão do carro para secar, só conseguia pensar como é que iria recuperar os memos e voltar a ter os contactos todos sincronizados com o Google, o Pinterest, o Blogger, o Facebook, o Hotmail, o Whatsapp, o Twitter, o Instagram, o DropBox… Mas vários quilómetros e um escaldão na cara depois, acabei por ceder. Afinal não estava a ser mau de todo estar completamente incontactável por um dia. E a água tinha acabado de me libertar do peso da decisão "apago, não apago…e se depois me vai fazer falta, apesar de não usar este número desde 1998?"
Até que um dia destes a minha garrafa de água decidiu tratar do assunto por mim. Passeava alegremente pelas ruas de Lisboa, quando enfiei a mão na mala para procurar o telefone e fiquei com o braço molhado até aos cotovelos. Confesso que na altura não consegui perceber de imediato o quão libertador era o momento que estava a viver. O tremelique no olho esquerdo que a morte do meu Android de apenas 5 meses me estava a causar não me permitia ver com clareza o que estava a acontecer. Enquanto hiperventilava e conduzia às voltas, sem destino, com o conteúdo da mala espalhado pelo chão do carro para secar, só conseguia pensar como é que iria recuperar os memos e voltar a ter os contactos todos sincronizados com o Google, o Pinterest, o Blogger, o Facebook, o Hotmail, o Whatsapp, o Twitter, o Instagram, o DropBox… Mas vários quilómetros e um escaldão na cara depois, acabei por ceder. Afinal não estava a ser mau de todo estar completamente incontactável por um dia. E a água tinha acabado de me libertar do peso da decisão "apago, não apago…e se depois me vai fazer falta, apesar de não usar este número desde 1998?"
Ligeiramente recuperada do choque de ter afogado parte das coisas que me são queridas, fui recordando alguns números de telefone que começaram a aparecer como popups na minha cabeça. Com o olho esquerdo quase estabilizado, reconheci que os números que nos são importantes se recuperam num minuto. Os outros, os que não se usam nunca, não fazem falta. Quase 400 números depois, agrada-me a ideia de começar uma lista telefónica do zero. E se as senhoras da clínica e spa me olharem de lado com rancor, explico-lhes que a culpa não foi minha, mas sim da bebida.
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